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Em 1966 às portas de Portello o Spider 1600 é o centro das atenções

Na década de 60 e notabilizado em duas e quatro rodas, um dos pilotos/actores comentava as linhas do Alfa: It is a very forgiving car. Very pretty, too. Assim falava do Duetto um excepcional “gentleman driver” Steve McQueen, convidado no Verão de 1966 pela Sports Illustrated a experimentar o “spider” italiano, entre outros “fast friends”. O automóvel testado é um dos primeiros Alfa Romeo 1600 Spider desembarcados nos Estados Unidos, depois da estreia no salão de Geneve-Suíça. A opinião de McQueen abarca a essência do Duetto e a unicidade da Alfa Romeo: prazer de condução e beleza em estado puro. É um parecer abalizado, mesmo tecnicamente. Steve McQueen é colecionador de superdesportivos e piloto capaz de classificar-se em segundo, na respectiva categoria, nas 12 Horas de Sebring de 1970, fazendo equipa com Peter Revson.

Um ano depois, quem está ao volante do Duetto é Dustin Hoffman, que corre a toda a velocidade ao som das músicas de Simon & Garfunkel no inesquecível filme a primeira noite. Imagens que fazem parte da história do cinema e que dão origem a um filão. O Duetto é utilizado como carro de cena em centenas de obras do pequeno e do grande ecrã e torna-se um objecto de culto. Também o campeão mundial de pesos-pesados Muhammad Ali deseja um Duetto, e recuperando o seu mote de quem voa como uma borboleta e ferra como uma abelha – Float like a butterfly, sting like a bee -, personaliza-o com a matrícula “Ali Bee”. E assim começa a carreira do Duetto em direção ao estrelato. Mas vamos dar um passo atrás para ficar a conhecer as suas origens, a inovação técnica do Giulia e o fascínio do Giulietta Spider.

Nascido para descobrir a América

Também na história do Giulietta Spider há um protagonista de nome Hoffman. Não Dustin, o actor, mas sim Max Edwin Hoffman, ex-piloto de competição, forçado pelo nazismo a trocar a Áustria pelos Estados Unidos, torna-se, em poucos anos, o importador americano de referência para as marcas europeias. Max é muito mais que um simples comerciante. É um profundo conhecedor do mercado. Orienta as políticas comerciais, encomenda modelos específicos, sugere variações de estilo e, com os seus conselhos, contribui para a criação de alguns dos automóveis desportivos mais admirados de sempre. Entre os quais está o Giulietta Spider. Para Hoffman, o Spider é uma obsessão. Começa a pedi-lo à Alfa Romeo em 1954, logo a seguir ao lançamento do Giulietta Sprint. Sente que pode tornar-se o automóvel perfeito para a Costa do Pacífico e sabe que, em Hollywood, todos vão querer um. Está tão certo do sucesso que diz-se disposto a comprar várias centenas de viaturas ainda antes de ver os desenhos definitivos.

A “Bella Signorina”

Hoffman consegue convencer Francesco Quaroni e Rudolf Hruska, e o projecto arranca. O estilo é posto a concurso entre dois designers do momento, Bertone e Pinin Farina. Bertone apresenta uma versão extrema, filha do protótipo “2000 Sportiva” de Franco Scaglione com frente pontiaguda, faróis englobados na carroçaria, aletas traseiras. A proposta de Pinin Farina é desenhada por Franco Martinengo e é a escolhida, pela elegância e pelo equilíbrio clássico das formas. A “bella signorina” (bela jovem), como lhe chama Pinin Farina, nasce com pára-brisas panorâmico e vidros laterais deslizantes. Na parte de dentro das portas não existe puxador, sendo a abertura através de um cabo. Só mais tarde chegarão um pára-brisas tradicional, vidros laterais de descer, painéis das portas equipados, capota em lona dobrável, puxadores externos e novos interiores. Um “concept” de puro desportivo, confirmado por performances extremamente brilhantes. O Spider adopta o motor do Giulietta,  o quatro cilindros em linha, 1290 cm³ de cilindrada, 65 cv de potência e 155 km/h de velocidade máxima. A potência continua a subir nas versões sucessivas,  a começar pelo Spider Veloce de 1958 de 80 cv. Ágil, jovem, rápido. E belo. O Giulietta Spider agrada ao cinema, e Fellini dá-lhe um papel em “La Dolce Vita”, Antonioni escolhe o carro de Alain Delon em “O Eclipse”. Torna-se um “status symbol” amado por celebridades, desejado por todos.

Made in Italy

Chega o momento de dar um herdeiro ao Giulietta Spider. Luraghi e a sua equipa sabem que não basta construir um excelente automóvel. É preciso recriar o mesmo carisma. A apresentação tem de ser um acontecimento, uma cerimónia solene, a meio caminho entre a investidura e a coroação. A Alfa Romeo pensa grande. Para o lançamento nos EUA, organiza um cruzeiro e convida as mais exclusivas personagens do mundo do espectáculo, do desporto e da moda. A bordo seguem 1.300 VIP, entre os quais Vittorio Gassman, Rossella Falk e a soprano Anna Moffo. O navio italiano Raffaello, com motores a turbina, viaja de Génova para Nova Iorque, fazendo escala em Cannes na altura do festival de cinema, e durante todo o cruzeiro três exemplares do novo Spider dão o seu próprio show no convés: um verde, um branco e um vermelho. Sublinhando o carácter italiano do seu produto, a Alfa Romeo antecipa em mais de uma década a linha de comunicação do “Made in Italy”. O Alfa Romeo Spider 1600 nasce a partir da plataforma do Giulia, com distância entre-vias reduzida a 2.250 mm; a mecânica é a do seu contemporâneo Giulia Sprint GT Veloce (evolução do Sprint GT). Na altura do lançamento, o Duetto é equipado com o clássico quatro cilindros de duas árvores de cames de 1570 cm³ em liga leve, capaz de debitar 108 cv e pesando  menos de 1.000 kg. A velocidade máxima é de 185 km/h.

“Duetto” ou “Osso di Seppia”?

Só o nome do modelo já dá para uma história. Para escolhê-lo, é organizado um concurso com prémios em colaboração com todos os concessionários da Europa. O nome escolhido é “Duetto” mas surge uma questão de direitos (pela homonímia com uma bolacha de chocolate) que obriga a lançar a viatura como Alfa Romeo Spider 1600. A sigla “Duetto” fica em segundo plano, consolida-se na memória dos fãs e torna-se o apelido comum a todas as gerações do modelo. Outros surgirão, o Spider de 1966, primeiro da série e última obra-prima de Battista Pinin Farina, fica conhecido como “Osso di Seppia” (osso de choco) pela sua forma elipsoidal. Frente e traseira arredondadas, lados convexos e linha de cintura muito baixa. O segundo é o “Coda Tronca” (traseira cortada), de 1969, que se distingue pelo corte aerodinâmico da parte posterior. O terceiro é o “Aerodinamica”, de 1983, nascido dos estudos em túnel de vento. Em 1989, chega a última geração, denominada “IV Serie” – automóvel de linhas depuradas e esguias, uma espécie de regresso às origens. Quatro gerações, mais de 124.000 unidades produzidas em 28 anos, a vida mais longa de sempre para um modelo Alfa Romeo.

Estórias da história da Alfa Romeo – o Duetto em Hollywood