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Das corridas para a estrada

partida em Imola 72No universo dos componentes eléctricos, a marca começou por ser uma identidade forte. No entanto, o fecho dos portões da empresa de Borgo Panigale, foi evitado mediante a conjugação das motos, das corridas e do talento de Fabio Taglioni, que em 40 anos desenhou 1.000 motores. E apesar de alguns projectos nunca terem visto a luz do dia, os que rodaram, contribuiram para que em 26 anos de Superbikes, a Ducati tenha conquistado 14 títulos de construtores. Todavia, no início, foram os 4T de 50 e 100 cc que deram notoriedade à marca, cujo historial também passou pelo mercado português.


Do bairro para o mundo

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Fabio Taglioni foi outro dos nomes importantes no desenvolvimento da Ducati. E o homem que evitou a morte anunciada da marca italiana

O que em tempos foi uma comunidade autónoma – Borgo Panigale – é hoje um bairro na cidade de Bolonha. E para os transalpinos, Bolonha é muito mais do que uma cidade. Basta pensar no “spaghetti bolognese” que ali foi inventado. E não estamos a exagerar. Para começar, o referido esparguete, é um daqueles pratos de “slow food” e numa base de tomate, há que adicionar, a cebola, o aipo, a cenoura, algumas especiarias e as carnes trituradas (vaca e porco). A receita original, chegou mesmo a ser editada em 1891, e registada na Academia Italiana de Cozinha no ano seguinte. Noutro ramo do negócio, para as primeiras motos circularem, foi necessário esperar mais uns anos. Este negócio familiar, começou por ser uma empresa de componentes eléctricos, que adoptou o nome do fundador Antonio Cavalieri Ducati.
Os irmãos Adriano, Bruno e Marcello – que chegaram a empregar 7.000 pessoas – cedo alargaram a actividade produtiva às máquinas de barbear, intercomunicadores, máquinas de calcular, máquinas fotográficas e de filmar. Todavia, a prosperidade da Società Radio Brevetti Ducati, talvez tenha sido a razão, pela qual a fábrica se tornou num alvo durante a II Guerra Mundial.

A passagem do Cucciolo

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O Cucciolo cruza-se com algumas marcas portuguesas de motorizadas

No pós-guerra e aproveitando a euforia do esforço de reconstrução, os irmãos Ducati apontaram baterias para outro negócio em verdadeiro “boom”. Em 1946 e depois de adquirido à Siata de Torino, adoptam o Cucciolo, cujas estórias se cruzam com o desenvolvimento das motorizadas entre nós, em especial com as marcas Suria e Vilar. Aliás, esta última, foi criada em 1922 como FNB – Fábrica Nacional de Bicicletas e convertida em 1930 como fornecedor da administração pública, montando motores Cucciolo nas mais conhecidas Vilar e Perfecta.
Entretanto, em Itália, apesar dos 12 recordes de velocidade conseguidos com o Cucciolo 50 cc e o magnífico resultado nas 24 horas de resistência com o 100 cc, as coisas foram-se complicando para os irmãos Ducati, e as várias tentativas de recuperação do negócio, iam acabando num beco sem saída, e o consequente encerramento.

Vencer ou fechar os portões

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A 100 Grand Sport ou “Marianna” foi um dos primeiros sucessos da era Taglioni na Ducati

Valeu-lhes a contratação (à concorrente Mondial) de um talentoso engenheiro, a quem foi dada a seguinte motivação e inerente responsabilidade:
– temos dinheiro para pagar um mês de salários… e precisamos de uma moto ganhadora para a Volta a Itália, uma competição a disputar durante nove dias.
Fabio Taglioni meteu mãos à obra e, com a prata da casa, criou a monocilíndrica 100 Gran Sport, mais conhecida como “Marianna”, em homenagem à mulher do nº 1 da Ducati. O “Mister” que contratou o homem, capaz de fazer coisas tão diferentes como a 100 Gran Sport ou as Superbikes, estava longe de imaginar que, para além de salvar a marca italiana, transformasse o historial da Ducati, numa malha de soluções inovadoras e sucessos na competição.

O comando desmodrómico

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O comando desmodrómico – já conhecido no MB SLR de 1955 – rapidamente se tornou num dos emblemas da marca, através da sigla Desmo.

Nas corridas em que as Ducati participavam e apesar de os pilotos serem pouco conhecidos, os resultados, rapidamente se tornaram referências! A Gran Sport de 100 cc venceu a edição de 1955 da Volta a Itália à média de 98,9 km/h, e mais tarde conseguiram a média de 103,2 km/h nos 1.400 km da prova que ligava Milano a Taranto. Em Junho de 1958 vencem o primeiro GP na classe 125 cc, na qual conquistam o segundo lugar dentre os construtores. Os sucessos da marca começam a cativar os nomes sonantes, e Mike Hailwood conquista os primeiros pontos, na classe de 250 cc do mundial de velocidade de 1960.
Nesse mesmo ano, nos modelos de estrada, a Mach 1 tornava-se na 250 cc mais rápida do mercado.
Ao longo dos 40 anos de presença na Ducati, Fabio Taglioni foi o responsável por 1.000 projectos de motores. Um dos mais emblemáticos foi o de comando desmodrómico das válvulas, solução que já tinha sido aplicada no Mercedes-Benz SLR de GP de 1955. Todavia, a dinâmica de uma moto e os regimes do motor, são muito diferentes face a um automóvel.
Mediante este sistema de comando de válvulas, foi possível substituir as molas e os problemas que estas apresentavam, em especial nas médias e altas rotações a que os 4Tempos eram ‘puxados’. O italiano, apurou a geometria do “desmo” (do grego = ligação) para que o mesmo comando fixo de abertura da válvula, fizesse o “dromo” (do grego = percurso) e assim nasceu o comando desmodrómico.

Os nomes sonantes

altaya27 5No tocante aos sucessos mais significativos, foi preciso esperar pela década de 70. Em 1971 Phil Read obteve os primeiros pontos na classe de 500 cc. Com a GT 750 Desmo, Paul Smart conquista a vitória na Imola 200 em 1972, enquanto a dupla Benjamim Grau e Salvador Canellas, vencem as 24 horas de Barcelona (1973) com a 860 Desmo L-Twin.
Em 1978 e com Mike Hailwood aos comandos da 900 SS F1, a Ducati vence na carismática Ilha de Man e conquista o primeiro título mundial, enquanto do lado de lá do Atlântico, Freddie Spencer em moto idêntica, conquistava um terceiro lugar em Daytona.
Na década de 80 e apesar dos sucessos nas pistas, a marca volta a passar por alguma agitação financeira e a mudar de mãos, desta vez para outra italiana: a Cagiva.
Os receios de que os novos donos alterassem o nome da marca, não se veio a concretizar, mas foi nas mãos destes entusiastas de motos, Claudio e Gianfranco Castiglioni, que se verificou um significativo desenvolvimento da marca, e a entrada da Ducati nas Superbikes.
Os anos 90 levam o capital da marca para a Texas Pacific Group, que em 2005 voltam a colocar a Ducati em mãos italianas, desta vez nos investidores Carlo e Andrea Bonomi.

300 vitórias e 14 títulos

1-300_winsQuando estes italianos adquiriram a marca do Borgo Panigale, já o historial nas Superbikes era significativo e andava, literalmente, sobre rodas. Com a 916, a Ducati, já tinha escrito uma página importante (1994), num campeonato configurado para ser ‘alternativa’ ao Moto GP. Considerada a moto do ano pela imprensa, a 916 permitiu a Carl Fogarty vencer o seu primeiro título, dos quatro que conquistou. O piloto inglês, foi um dos que mais contribui para o sucesso da marca nas Superbikes. Em 26 edições, a Ducati venceu 14 títulos de construtores.
Em 2001 e com Troy Bayliss aos comandos, a Ducati assegura mais um título com a 996, e enquanto o australiano brilha nas pistas, a Ducati anuncia a intenção de voltar ao Moto GP.
Nos dois anos que se seguem, a dupla Loris Capirossi e Troy Bayliss, conseguem brilhar em duas frentes, desta vez com a Desmosedici. Em 2004, aos comandos da 999, James Toseland torna-se no mais novo campeão nas Superbikes, sucedendo a outra dupla imbatível Neil Hodgson e a 999.
Para o australiano Casey Stoner, a quem é reconhecido um estilo agressivo na condução, só a vitória interessa e por vezes… entre avarias e quedas, a coisa dá-se.
Na época de 2007, chegaram aos primeiros títulos: ele e a Ducati em Moto GP.
Na lista de nomes sonantes que passaram na Ducati, há dois que para sempre farão parte do historial da marca! Valentino Rossi, que entre problemas físicos e o desenvolvimento das motos, esteve longe do que os fãs esperavam, em especial os “tiffosi”, e o espanhol Carlos Checa, que um dia desfraldou a bandeira da Ducati, na 300ª vitória da marca de Borgo Panigale. A terra onde se inventou o “spaghetti bolognese”.