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Capacete ou carta

Por entre outras tentações para quem anda de moto, circular sem capacete é uma destas. No entanto, as entidades fiscalizadoras tendem a discordar desta escolha e, de vez em quando, lá aparecem umas coimas. Com ou sem perseguições, como nos filmes. E embora estas últimas tenham caído em desuso, tempos houve em que alguns agentes primavam, pelo estoicismo com que encaravam a sua actividade. Um dos casos mais emblemáticos, era o célebre ‘bigodes de aço’ conhecido por duas razões: ninguém lhe escapava a fugir à sua moto; costumava perdoar muitas infracções… menos a ausência de carta. E a propósito de capacetes e cartas de condução, o insólito acabou por acontecer. Pelos idos de 74 e em clima de turbulência revolucionária, era frequente ver malta a circular sem capacete.

A ‘manif’ visava contestar o imposto do selo às motos de maiores cilindradas.

Em alguns dos casos, seria por rebeldia ou irreverência, noutras situações, o caso assumia contornos de protesto. Aliás, chegou mesmo a existir uma significativa ‘manif’ que, entre outras exigências, procurava abolir o imposto de selo. Organizada pelo pró-moto clube de Portugal, contestava a decisão dos governantes de então (1974-75) em aplicar um imposto de luxo sobre as motos de maiores cilindradas. A contra-proposta visava aplicar um imposto a todos os veículos de duas rodas, mas esta foi recusada por se achar que não traduzia a essência da coisa. Aplicar taxas a veículos de duas rodas, como as 50 cc que compunham a esmagadora maioria do parque circulante, configurava uma afronta à classe trabalhadora e indústria nacional. A manifestação com representação nacional, percorreu as principais artérias lisboetas… e em jeito de contestação, muitos iam sem capacete posto.

No entanto, noutro contexto, o caso mais insólito aconteceu quando um ilustre motociclista, achou que não devia usar capacete. Começou por ser multado, e uma após a outra acabou em Tribunal com um rol de multas. Já em tribunal, explicou que não se sentia bem de capacete, e que além disso lhe condicionava o campo visual. E de tribunal em tribunal, o processo acabou no Supremo, que decidiu retirar-lhe a carta de condução de moto. Por um lado, a lei obrigava à utilização de capacete; por outro, e face a todos os argumentos apresentados pelo ‘arguido’ decidiu o Supremo Tribunal, que ele não reunia as condições para ter carta de moto e retirou-lha.

Letra e música: António Moura

Arranjos: Fausto Monteiro Grilo