Download PDF

Dados revelam que condutores com baixa percepção de risco de acidente têm 2,6 vezes mais probabilidade de se envolverem em acidentes com danos corporais. A Prevenção Rodoviária Portuguesa, a Escola Nacional de Saúde Pública e a Norauto Solidária, apresentam as conclusões de um estudo conjunto sobre a manutenção de automóveis ligeiros e a sua influência na segurança rodoviária em Portugal. O presente estudo incidiu na análise de vários componentes dos veículos (pneus, amortecedores, travões e luzes), na aferição da percepção dos condutores sobre o estado dos respectivos veículos e comparação com a avaliação dos técnicos da Norauto, entre outras questões de segurança rodoviária, como a utilização do cinto de segurança, a percepção sobre o risco de acidente ou a participação em acidentes rodoviários. Incluiu a avaliação técnica de 3.228 automóveis, realizada em todas as oficinas da Norauto em Portugal Continental, entre Abril de 2016 e Abril de 2017. Dos automóveis avaliados pelos técnicos e mediante o quadro abaixo, alguns dados são preocupantes, porquanto as deficiências nestes equipamentos colocam em causa a segurança dos próprios e a dos outros utentes da estrada.

Elementos mecânicos em mau estado ou sofrível

pneus

travões

amortecedores

luzes

23%

16%

9%

5%

Como seria esperado, os veículos que se apresentam em melhor estado são os mais recentes, os que têm menos quilómetros percorridos e aqueles cujos condutores afirmam cumprir com mais frequência o plano de manutenção recomendado pela marca. A análise das respostas dos condutores permite verificar que aqueles que consideram que o mau estado de cada componente mais contribui para o aumento do risco de acidente, são os que possuem o automóvel em melhores condições.

Mais de 3 em cada 4 condutores classificaram o estado de cada componente de forma semelhante à avaliação feita pelos técnicos: 76,4% na avaliação do estado dos pneus, 81,9% nos travões, 87,8% nos amortecedores e 91,1% nas luzes, revelando terem um bom conhecimento do estado dos seus veículos. Nos casos em que a classificação divergiu, predominaram os condutores que sobreavaliaram o estado do automóvel, destacando-se neste caso os condutores de carros adquiridos em segunda mão, de veículos com mais anos de vida, os condutores com maior grau de escolaridade e, sobretudo, os que apresentam uma baixa percepção de risco de acidente.

Cerca de 3 em cada 4 condutores referiram que cumprem frequentemente ou sempre os planos de revisão recomendados pela marca. No entanto, à medida que a idade do automóvel avança, os condutores cumprem com menos frequência o plano de manutenção: desde 95% nos veículos com 4 anos ou menos até apenas 55% nos veículos com 15 ou mais anos.

A condução sob o efeito de álcool, a velocidade e a fadiga (comportamentos do condutor) foram os factores a que os condutores atribuíram mais influência no aumento do risco de acidente rodoviário. Entre os factores relacionados com o automóvel destacam-se o mau estado de travões e pneus, enquanto o mau estado do piso surge como o factor com maior influência nos indicados no que ao estado da via diz respeito.

O estudo permitiu ainda identificar dois grupos de condutores com diferentes perfis de risco – um com alta percepção de risco, que inclui a maioria dos condutores (87%), que atribui mais risco aos comportamentos dos condutores. O outro grupo, de condutores mais novos e com menor escolaridade, representa 13% da amostra e tende a desvalorizar os comportamentos de risco do condutor, atribuindo maior risco de acidente a factores externos, sobretudo às condições atmosféricas adversas e ao estado do piso das vias.

De destacar que a percentagem de condutores que se envolveram em acidentes, é muito maior nos condutores com baixa percepção de risco de acidente, do que nos condutores com alta perceção de risco: 2,6 vezes no caso dos acidentes com danos corporais (6,8% vs. 2,6%) e 1,5 vezes nos acidentes apenas com danos materiais (26,7% vs. 17,5%).

Segundo José Miguel Trigoso, presidente da PRP, os resultados deste estudo mostram que os condutores ainda não consideram a influência que a distração tem no risco de acidente, sobretudo a provocada pela utilização do telemóvel, ao mesmo nível de outros comportamentos perigosos, como a condução sob a influência do álcool, o excesso de velocidade ou a fadiga. Outro aspeto preocupante é a relativização do risco da condução sob o efeito de álcool por uma parte da população. Na verdade, enquanto nos condutores com alta percepção de risco, o álcool surge como o factor mais perigoso, entre os 13 factores em avaliação, no grupo de condutores com menor percepção de risco e maior frequência de acidentes, o álcool surge como o de menor importância. Estas duas temáticas devem ser prioritárias no desenvolvimento de políticas de segurança rodoviária.

Para Carla Nunes, Professora da ENSP-NOVA, este estudo revela com clareza a necessidade de uma estratégia que vá ao encontro dos desafios, em termos de saúde pública, na área da percepção dos comportamentos de risco. 1/4 dos condutores não considera que o uso do telemóvel representa um risco elevado, 1 em cada 5 não reconhece que a fadiga e a velocidade são factores de elevado risco de acidente e 30 % dos condutores admite não usar cinto de segurança quando viajam no banco de trás. Se pensarmos que a percentagem de condutores envolvidos em acidentes é muito maior entre os inquiridos com baixa percepção de risco sobretudo nos comportamentos – em detrimento dos factores relacionados com o estado do automóvel e da via – e que estas pessoas se encontram, maioritariamente, numa faixa etária jovem, podemos concluir que o caminho para melhorar estes números terá que passar necessariamente por novas abordagens de sensibilização, direccionadas para esta população.

Para Philippe Blondel: A Norauto Solidária tem por missão apoiar projectos que, na área de actuação da Norauto, possam contribuir para a melhoria da Segurança Rodoviária, ajudar à mobilidade e respeito pelo ambiente. Aquando do nosso 20º Aniversário, tivemos oportunidade de celebrar uma parceria com a Prevenção Rodoviária Portuguesa e com a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa para o desenvolvimento deste projecto. Estamos muito satisfeitos por ter contribuído activamente para a concretização deste estudo da maior importância, cujas conclusões nos devem ajudar a adequar as políticas de segurança rodoviária.